O Regresso do Lápis Azul


Durante mais de 40 anos, do século passado, o destino do nosso país esteve preso ao lápis azul. Foram anos difíceis e que todos pensávamos que já havia terminado com a nova manhã do dia 25 de Abril e com o resplandecente novo milénio. Engano. Puro e simplesmente um grande engano. Tudo parecia estar bem. Porém, os nossos governantes de direita e extrema-direita quando confrontados com algo novo, diferente, da monotonia de todos os dias decidiram mostrar ao eleitorado português a sua verdadeira face, aquela que se encontra debaixo do pó-de-arroz das câmaras de televisão e do verniz das festas V.I.P. no Algarve e em Lisboa. A sua face não é nova, é velha, bafienta e conhecida de todos (e se não é pelo menos deveria ser), é a face dos senhores do lápis azul, aqueles que detinham o poder no tempo da outra senhora. É possível termos uma imagem cinematográfica de toda a cena. Senão comprovem por vocês mesmos, para tal basta visualizarem a imagem que se segue a preto e branco. No palácio de Belém, no gabinete do recém-nomeado Presidente do Conselho estão reunidos os homens fortes da nação. Obviamente, que na sala está também presente o retrato do “pai da nação”, o António dos Sapatos Rotos. Todos confraternizam, bebendo uísque velho e fumando charutos, riem numa amena cavaqueira enquanto decidem o futuro do país. O ambiente mantém-se agradável, até ao momento em que alguém lança para a mesa um assunto incómodo. Os presentes ajeitam-se nas cadeiras. Param os risos. A conversa evapora-se no ar. De repente, a sala congela, o ar torna-se irrespirável. Os ministros que até à pouco tempo conversavam olhando directamente nos olhos dos seus colegas, olham agora taciturna e preocupadamente para as suas mãos ou para o tecto. Tudo aponta para que se irá passar um mau bocado. Até que por fim alguém exclama uma solução para o problema: “Evocamos o Perigo de Saúde Pública”. Uma aragem quente percorre a sala. Os olhos fixam-se agora nos movimentos no Presidente do Conselho. Até que por fim este último solta uma respiração profunda. O gelo quebra. O ar na sala torna-se mais quente com o fumo dos charutos e o cheiro do uísque velho. Retomam-se as conversas. Os sorrisos começam a formar-se na cara dos ministros. O Presidente decide encerrar imediatamente o assunto, para tal, chama o chefe dos homens do lápis azul e dá-lhe a chave de ouro para o problema que assalta a nação. E foi assim que se deu o regresso do lápis azul. E como não poderia deixar de ser o seu regresso, tal como aconteceu no passado já está a causar danos. E quem paga as favas são sempre os mesmos. Acreditem!

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